writings on architecture, design and cultural studies (incl. oporto school, portuguese architecture, critical project, drawings and photografphy, cedric price, gordon pask, and other stuff...)
1/12/26
DA VIAGEM
DA VIAGEM
Gonçalo furtado
i.
Desenvolvi nos últimos anos uma série de exposições e publicações com fotografias de viagens realizadas por países dos continentes da América, África, Europa e Ásia. Este catálogo, para a galeria de arte ‘O Rastro’, é composto por uma selecção de aproximadamente 4 dezenas dessas fotografias. É dedicado ao meu filho Francisco, á semelhança da série ‘Continentes’, tendo constituído também oportunidade de partilhar uma sequência de breves notas acerca da viagem e das artes.
ii.
Sabemos que os actos de viajar acompanham a história da humanidade, variando essas em termos da propósitos, distâncias e duração. E que viajar, desde logo, implica uma deslocação - por um itinerário de lugares e paragens previsto ou espontâneo - no espaço e no tempo./
Viajar propicia a vivência de experiências diversas, bem como a exploração de singularidades, sejam paisagens e edificações, ou populações, culturas e modos de vida. Intensificando interações-cruzamentos, potencia confrontos com situações inspiradas e, frequentemente, desconhecidas./
Por isso, a viagem promove uma deslocação que é, também e sobretudo, mental. Alimenta-se tanto da curiosidade, como de uma certa evasão existencial que pode advir de uma libertação face ao conforto da repetição quotidiana. Suscita a auscultação e introspeção, bem como transcendências, e regressos renovado-transfigurado.
iii.
Ora, para o que aqui mais interessa, cumpre ainda dizer que o acto de viajar está também associado ao mundo das artes e arquitectura. Propicia a experiência da contemplação, bem como a aquisição de conhecimento acerca de ocorrências e concretizações noutros lugares e épocas./
Historicamente, de resto, a viagem foi fundamental para a formação e emancipação do artista. Sobretudo por intermédio da denominada ‘Grand tour’, que se exponenciou entre os séculos XVI a XVIII, fomentando um contacto directo ‘in loco’ com arquétipos da antiguidade clássica. Recordando-se como, por exemplo no século XIX, o ‘Grand Prix de Rome’ da Académie des Beaux Arts de Paris, foi atribuído a notáveis arquitectos portugueses, incluindo José Luís Monteiro, Ventura Terra ou Marques da Silva. Mais sendo que, curiosamente, as minhas próprias primeiras viagens ainda pré-universitárias, foram a Paris e Itália, etc.
iv.
No século XX assistimos a uma democratização da viagem, e no presente século XXI – com uma globalização suportada por mass-media, redes e telecomunicação – culminou-se na sua relativa banalização. Futuramente, após mapeamentos em GPS e voyeurismo ‘on-line’, afrontaremos realidades virtuais aumentadas e ficções por inteligência artificial./
Não obstante, certo é que o acto da viagem deve continuar a ser considerado fundamental no mundo das artes e arquitectura./
E continuará a ser acompanhada da recolha de informação - socorrendo-se de instrumentos variados, como a escrita e o desenho ou a fotografia. Conformando arquivos de memórias - os denominados ‘diários gráficos’ - compostos de fragmentos de passagens, que continuarão a ser alvo de estudo e reflexão á posteriori. Assim inspirando o desenvolvimento da actividades e obras artísticas pessoais. Contribuindo para a construção de identidades artísticas intensas e genuínas, entre cidadãos de um mundo global.
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