6/7/26

Port Bou (Nota de visita preliminar a residência).

Port Bou (Nota de visita preliminar a residência). Portbou, pequena povoação, com estação férrea, na fronteira entre Espanha-frança, no fim de cordilheira dos Pinéus. As construções dispõem-se em redor de uma baía no mediterrâneo, coroadas por um cemitério á direita. O local é símbolo de desejo democrático na Europa no último século. História de sequência de rotas de tráfico clandestino, das fugas republicanas da guerra civil (1936-?), em expressão dos fascismos na europa, e mesmo do êxodo judio da Grande Guerra…./ Walter Benjamin ali chegou em setembro de 1940, com mala carregando anotações acumuladas em Paris, onde se refugiava desde 1933. Chegou com guia, uma senhora seu filho. Mais tendo então sido identificado na esquadra da polícia, e hospedado no quarto de pequeno hotel./ Ora, ali, temendo por só possuir o visto para passar Espanha e Portugal rumo aos EUA, escreveu carta a Adorno. Constatando que seria nesse pequeno local, junto aos Pirenéus e onde ninguém o conhecia, que acabaria a sua vida. Mas este seu “suicídio”, associa-se ao momento mais amplo e particularmente bárbaro da História dó século XX./ A sua amiga Arendt – (que tão pertinente ainda permanece nos dias que hoje correm), - visitou um dia tal local, recordando-o como um dos mais bonitos em que estivera. Depois, desde o outro lado do Atlântico, promoveria a tradução inglesa dos textos de Benjamim. Textos com escrita caracteristicamente fragmentada, como única possibilidade da tentativa de dar conta de uma realidade que nos é dificilmente apreensível./ O memorial a Benjamim, que foi construído junto ao cemitério pelo escultor israelita Karavan, consiste num caminho vertiginoso de queda ao mar (que não deixa de ser o que hoje se continua a passar em locais como Gaza….). E a a reprodução do branding “Walter Benjamim”, disseminada ubiquamente por toda a povoação, não deixa de ser simulacro de uma sociedade pró-democrática, de consumo turístico global e gentrificação mediática… Tal não pode senão deixar de nos surgir, de forma paradoxal e indagante, enquanto cidadãos europeus de um mundo pós-democrático ameaçado por fenómenos como o populismo./ Esta visita é pessoalmente também memória de um dia horribilis, de simultâneo não sucumbir ás pequenas barbáries com que nos deparamos na nossa pequena vida individual, em prole da resistência maior que o actual conflituoso mundo reivindica a qualquer intelectual minimamente dedicado. Quiçá, enquanto desejo de continuo contributo a este mundo que em breve deixaremos á geração dos nosso filhos e netos. Como um sentido de vida, para esses que serão também um dia os novos pais no enigmático mundo que se conforma para o século XXI./ GF, 3.6.2026

No comments: