10/20/26

O que é que é a fotografia e o que é que já não é fotografia: Texto para um livro do Ortopedista Higino

O que é que é a fotografia e o que é que já não é fotografia. Ernst Gombrich historiou a Arte sob a perspectiva de uma busca de imagens verosímeis, numa sequência de fases que passa pelas mimésis da antiguidade, pela arte moderna, culimando nos desenvolvimentos imagéticos ocorridos desde o século XIX/XX. A fotografia da Era industrial, baseia-se especificamente na ideia da câmara escura e sensibilização química, argumentando-se inicialmente pela sua precisão, realismo e imediatez em relação à prática pictórica. A imagem fotográfica tornou-se omnipresente, estimulando a reflexão de múltiplas personagens, que vão de Walter Benjamm a Susan Sontag ou Rossalind Krauss por altura do último quartel do século XX. / Em finais do século Joanthan Crary,historiou a conformação de um observador moderno manipulável, enquanto autores como William Mitchell indagaram acerca do estatuto da verdade fotográfica face ao advento digital. Por outro lado, Vilém Flusser alertou para o aparato fotográfico como absorvente de todas as potencialidade restando ao fotógrafo subverter o seu manuseamento. E Roland Barthes para que a fotografia representar o olhar do fotógrafo mais do que o fotografado. / O dramático século XXI em que vivemos, iniciado com o mediatismo do ataque às torres gémeas, tem prosseguido com alertas climáticos, crise económicas pandemias e um avolumar de conflitos bélicos. Em Portugal, se o último quartel do século XX nos propiciara uma revolução democrática e o avançar para uma sociedade pós-industrial da informação (e alegado conhecimento); o primeiro quartel do presente século sedimenta um claro populismo previligador do que resumidamente se tem adjectivado como “pós-verdade”. A sociedade estrutura-se em redes digitais, aptas a progressiva inundação imagética por prompts de IA. / Neste contexto, uma pergunta que se torna legítima é: O que pode ainda (politicamente) a arte fazer?. / Obviamente contexto para tal reflexão em extensão não é o actual. Mas no que à fotografia tão só concerne uma consideração se pode partilhar: quando se torna comum a multiplicação permanente de imagens, (mediante fotografia com os artefactos digitais móveis que todos possuímos), parecem relevar práticas que primem pela selectividade que existia na fotografia analógica (cada rolo só permitia 24 disparos).. Num primeiro livro de 2024, podemos encontrar um conjunto somente de 17 imagens, de espaços interiores, iluminados artificialmente, alusivos ao tratamento do corpo humano, e num segundo livro de 2025 encontramos o dobro de registos de espaços exteriores, noturnos, figurando urbanidades europeias. Agora, no presente terceiro livro de 2026, podemos deparamo-nos com um olhar do fotógrafo sobre aquilo que a natureza lhe ofereceu, numa beleza da texturas objectivamente enquadradas. Da natureza da fotografia, a fotografia da natureza E assim, por fim, chegou a hora de partir com a mala de Duchamp.

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