4/1/26

bertolt brecht - aos que virão a nascer

bertolt brecht - aos que virão a nascer     I   Éverdade, vivo em tempo de trevas! É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa Revela insensibilidade. Os que riem Riem porque ainda não receberam A terrível notícia.   Que tempos são estes, em que Uma conversa sobre árvores é quase um crime Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade? Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua, Não estará já disponível para os amigos Em apuros?   É verdade: ainda ganho o meu sustento. Mas acreditem: é puro acaso. Nada Do que eu faço me dá o direito de comer bem. Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)   Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens! Mas como posso eu comer e beber quando Roubo ao faminto o que como e O meu copo de água falta a quem morre de sede? E apesar disso eu como e bebo.   Também eu gostava de ter sabedoria. Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio: Retirar-se das querelas do mundo e passar Este breve tempo sem medo. E também viver sem violência Pagar o mal com o bem Não realizar os desejos, mas esquecê-los. Ser sábio é isto. E eu nada disso sei fazer! É verdade, vivo em tempo de trevas!     II   Cheguei às cidades nos tempos da desordem Quando aí grassava a fome Vim viver com os homens nos tempos da revolta E com eles me revoltei. E assim passou o tempo Que na terra me foi dado.   Comi o meu pão entre as batalhas Deitei-me a dormir entre os assassinos Dei-me ao amor sem cuidados E olhei a natureza sem paciência. E assim passou o tempo Que na terra me foi dado.   No meu tempo as ruas iam dar ao pântano. A língua traiu-me ao carniceiro. Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo Sem mim estavam mais seguros, esperava eu. E assim passou o tempo Que na terra me foi dado.   As forças eram poucas. A meta Estava muito longe Claramente visível, mas nem por isso Ao meu alcance. E assim passou o tempo Que na terra me foi dado.     III   Vós, que surgireis do dilúvio Em que nós nos afundámos Quando falardes das nossas fraquezas Lembrai-vos Também do tempo de trevas A que escapastes.   Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos As guerras de classes, desesperados Ao ver só injustiça e não revolta.   E afinal sabemos: Também o ódio contra a baixeza Desfigura as feições. Também a cólera contra a injustiça Torna a voz rouca. Ah, nós Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade Não soubemos afinal ser amáveis.   Mas vós, quando chegar a hora De o homem ajudar o homem Lembrai-vos de nós Com indulgência.

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